Após figurar como analista na mesa nacional e internacional das finais da ESL Pro League, Luis 'peacemaker' Tadeu, ex-coach da powerhouse americana Team Liquid conversou com a equipe da Games Academy sobre sua estadia e carreira nos Estados Unidos e seus planos para 2017.

Em atividade no Counter Strike competitivo desde 2008, sua carreira internacional como coach começou no final de 2015, com a contratação pelo time da Games Academy.

Luís foi um dos principais catalisadores da evolução da line-up brasileira, que foi adquirida pela Tempo Storm em fevereiro de 2016.

Em Maio, em contratação inédita no cenário brasileiro, se tornou coach da Team Liquid, se tornando o primeiro brasileiro a trabalhar com uma line-up totalmente norte-americana. Em 2 meses de trabalho, chegaram as finais da ESL One Cologne 2016, um feito nunca antes visto por um time estadunidense.

Confira a entrevista abaixo, onde Peacemaker fala sobre diversos pontos de sua carreira, sua convivência com os jogadores norte-americanos, o cenário brasileiro e suas conquistas como coach.


Como foi a experiência trabalhar com jogadores norte americanos? Teve algum choque cultural?

Culturalmente falando, bem diferente.. os costumes, a determinação e seriedade que eles levam a profissão é de se invejar. A educação e união entre a galera de lá é bem diferente também, não sei como esta no Brasil agora, mas lá dificilmente rola intriguinha, briga etc. Sobre a parte de jogo, uma experiencia muito gratificante pra minha carreira e me orgulho muito de ter sido o primeiro técnico brasileiro a treinar uma equipe internacional.

liquidpeace

Como você avalia sua estadia na Team Liquid? O que conseguiu mudar na equipe?

Sinceramente? Faltou trazer um caneco pra casa, mas de qualquer forma, com pouco menos de 6 meses a sensação é de dever cumprido. Conseguimos avançar para os playoffs nos campeonatos em que jogamos, chegamos em uma final do major com 2 meses e ampliamos o map pool da equipe consideravelmente. Fico feliz com minha passagem e o sucesso que obtive lá.

Muitos dizem que o s1mple era um cara difícil. Você teve alguma dificuldade na convivência com ele?

No começo sim. Eu brinco que eu e o s1mple no começo parecia relação de homem e mulher. Era eu tentando conquistar a confiança dele o tempo todo, mas depois também que ele viu o quanto eu trabalho sério e que queria o bem dele, acabou mudando bastante as atitudes e a convivência se tornou muito saudável e divertida. No fim parecíamos irmãos um, zoando uns aos outros. Até hoje somos amigos e nos respeitamos muito, e depois da ESL NY ele me mandou uma mensagem muito bonita agradecendo tudo que fiz por ele, fiquei bastante feliz.

peacesimple

Como foi a experiência de chegar as finais da ESL One Cologne? Claramente foi um passo e tanto pra times Norte Americanos.

Única e inesquecível. Acho difícil uma equipe underdog como nós conseguir esse feito nos próximos anos. Hoje todo mundo se prepara muito mais e estuda muito mais uns aos outros. Inicialmente, nos preparamos muito para passar de grupo, depois, o jogo contra o NaVi foi memorável tendo em vista que perdemos o primeiro mapa e conseguimos dar a volta por cima. Tivemos a sorte de enfrentar a Fnatic na semi final que, sinceramente, nos desmereceram e foram punidos. Por fim, faltou experiência e maturidade pra ganhar do SK, a melhor equipe do mundo disparada na época.

A nova coaching rule afetou bastante a dinâmica da Liquid, que tinha você como coach-IGL. Como você vê essa regra se aplicando a outras equipes mais pra frente? Acredita que uma possível reanálise por parte da Valve seja uma boa idéia?

Várias equipes foram afetadas. Daria ênfase ao Liquid, NaVi e NiP em que os coachs eram os IGL's. A princípio fiquei apavorado com a regra, mas tive algumas ideias de como contornar a situação, fiz um plano sobre isso e hoje me sinto a vontade. Se o objetivo da Valve era fazer os coaches terem menos impacto dentro do jogo, comigo eles falharam. A ideia de reanalisar seria bom, não acho que tenha que mudar muita coisa. Liberar os coaches pra falar no freezetime já seria ótimo.

Como vê a evolução do Brasil no cenário internacional nos últimos dois anos?

Incrível, acho que o LG abriu as portas pra muita coisa. Logo em seguida viemos com a GA-Tempo Storm e hoje em dia temos 4 equipes brasileiras em solo americano e com boa estrutura. Já no Brasil, a quantidade de equipes patrocinadas, organizações e jogadores sempre me impressiona quando venho pra cá. Infelizmente ainda faltam campeonatos e qualifiers aqui pro negócio alavancar e se tornar ainda mais profissional.

Pela sua passagem pela Tempo Storm/Immortals, como você avalia o desempenho deles agora com Zews nos últimos torneios (ELEAGUE, EPL)? O que você acha que pode estar faltando?

Posso estar errado mas não vi muita evolução na equipe desde que eu sai. Sei pouco sobre os motivos da saída do zews da equipe, admiro a coragem de tentar voltar a ser jogador profissional depois de tanto tempo parado. Infelizmente ele não conseguiu ter o impacto a curto prazo que todos esperavam e que talvez até ele mesmo esperava. Na minha opinião não sinto que o problema fosse apenas isso. Agora com a entrada do steel, vamos ver o que acontece, fico de fora torcendo pois tenho pessoas que gosto muito lá.

TempoStorm

Se estabelecer internacionalmente como equipe é um pouco mais complicado do que em 2015. Acha que hoje atingimos o limite de equipes brasileiras jogando lá fora?

Sinto que em 2017 teremos pelo menos mais uma equipe brasileira jogando fora. É uma pena que ainda nosso cenário não nos dá a oportunidade de ficarmos em nosso país pra competir pras principais ligas. Espero que essa geração nova do CS consiga isso, pois a distância não é nada fácil.

Como foi a experiência de fazer parte de uma mesa de analise? É muito diferente estar do outro lado da transmissão?

Se eu disser que não fiquei nervoso estou mentindo, deu aquele friozinho na barriga no começo. Fui acostumando com a ideia das câmeras e a arte do improviso. Foi muito especial ter essa oportunidade ao lado de pessoas tão talentosas na mesa BR e ainda ser presenteado com um convite para fazer parte da mesa gringa no Ibirapuera. Foi inesquecível, estar perto e sentir o carinho dos brasileiros me fez muito bem, embora confesso que olhava meio triste pra aquele palco varias vezes no domingo e queria estar lá sentindo aquela energia. Por fim, esse trampo me deu a alegria de levar minha família ao Ibirapuera pra conhecer meu trabalho.

Quais são seus próximos passos em sua carreira? O que ainda falta? Planos para 2017?

Continuar como coach e analista, acho que ainda tenho muito trabalho pela frente nessa carreira. Hoje não enxergo que tenho que provar meu potencial, mas sem dúvidas estou terminando 2016 com apenas um titulo offline, em 2017 vou em busca do major. Eu sempre fui movido a desafios e eu adoro quando duvidam do meu potencial ou do potencial da equipe que estou treinando. Facilita meu trabalho e me motiva ainda mais. Vamos ver o que 2017 me reserva.


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